a nossa história
1997
 

                                           

Primeiros Grupos de Entreajuda
 

À medida que fomos escutando os pais que nos procuravam    cujo    número    aumentava   de   forma assustadora  demo-nos conta da solidão em que viviam a sua dor.

Os  amigos, os  familiares, os  colegas  de  trabalho que nos primeiros tempos são incansáveis começam, como é natural, a  voltar pouco a pouco à sua vida normal e os pais  ficam  sem  ter  ninguém com quem falar dos seus filhos desaparecidos.

 

Foi  assim  que  em  Janeiro  de 1997 decidimos criar os primeiros   Grupos  de  Entreajuda: - Lisboa - Sintra - Parede - Aveiro.

 

A  Nossa  Âncora  escuta com muito amor todos os pais que  a  ela  chegam  e  precisam  desesperadamente de falar  dos  seus  filhos. Eles  sabem  que  connosco têm espaço  para  chorar, para ser ouvidos ou simplesmente para  ouvir  os  outros. Eles  sabem  que não caminham sozinhos  e  que  haverá sempre uma mão estendida para os ajudar a  levantar quando caírem. Nós caminhamos  com  eles  ao longo do túnel escuro do seu luto dizendo-lhes a cada momento, vem, dá-me a mão, o caminho é longo, temos que dar um passo de cada vez. Escorregaste, não te importes, chora. Vamos descansar um momento, quando tiveres recuperado as forças continuaremos. Vem, eu conheço o caminho, já por aqui passei e lá ao fundo o Sol brilha.
Com a passagem do tempo alguns verbalizam e outros sentem sem nada dizer: “Eu preciso de voltar a ser feliz por mim próprio, pelos meus filhos, pela minha família e amigos, mas é tão difícil. Será que vou consegui-lo algum dia?
E começam a interessar-se mais pelos tempos da caminhada dos outros. Quanto tempo depois do seu filho ter morrido é que deixou de ir todos os dias ao cemitério? Quando é que desmanchou o quarto da sua filha? Quando é que conseguiu ver televisão outra vez? É capaz de olhar para as fotografias dele ou dela sem chorar? Um sem fim de questões que os abafam e querem começar a destrinçar.
É a esperança a dar os primeiros passos.
Nos grupos de partilha os pais, jovens ou menos jovens, começam por descarregar a angústia contando os detalhes, por vezes horríveis, das últimas recordações que têm do seu filho. Entre estas lembranças há os postos de polícia, as noites sem dormir, o desejo de gritar o seu sofrimento.
Quando eles falam disto, ninguém fica chocado. Ninguém deixa a sala porque acha que é muito difícil ouvir. Estes pais não são nem criticados nem julgados. São escutados e compreendidos. Nestes grupos onde se partilha o sofrimento partilha-se também a esperança.
Falando uns com os outros, muitos pais descobrem pelos testemunhos partilhados, a forma como o seu filho viveu a morte a que não assistiram e assim encontram não só uma certa consolação e paz, como conseguem compreender melhor a natureza humana no seu carácter espiritual. Descobrem nos desenhos, poemas ou em qualquer outra coisa, à primeira vista insignificante, mensagens escondidas, uma linguagem simbólica utilizada pelos jovens, mensagens que na maior parte das vezes só têm sentido depois da morte.
A morte desencadeia reacções muito forte que nós não dominamos. O grupo de pais pode trazer-nos principalmente a descoberta de que os outros também vivem as mesmas tempestades de violência, de agressividade, de ciúmes, de angústia, de medo. É libertador. É preciso reconstruirmo-nos, procurar de novo as nossas raízes e encontrar os nossos alicerces. E quem, melhor do que os pais nos pode ajudar? "A Nossa Âncora" proporciona esse encontro dos pais nos Grupos de Entreajuda.

 

design oferecido por IMAGO  desenvolvimento oferecido por Maria Emília Pires