Provavelmente o que muitos pais falam, quando se dizem culpados, não é
de sentimentos de culpa que estão a falar, mas de algo mais que é muito
dificil definir.
É o reconhecimento da falta de estratégias para olhar para a vida, após
a morte de um filho. A vida agora, é só feita a partir dos pais e dos
irmãos, quando os há.
A partir desse instante, e durante muito tempo, os planos que existiam
em comum, numa família, dei- xam de fazer sentido. Essa interrupção
abrupta, retira-nos toda a lucidez e energia.
Vazios por dentro e sem ambição, os pais passam a deambular num mundo de
trevas, dor e muita solidão.
Os outros não conseguem compreender e afastam-se e os pais, também eles,
se afastam, por se tornarem incompreendidos.
Então, aflora todo o tipo de pensamentos e balanços. Recordações e
projectos. E a memória, companheiro dos nossos silêncios, deixa de ser
muitas vezes o amigo mais adequado.
É preciso fazer um luto de paz. Paz interior e que não seja contra nada,
nem ninguém. Um luto recheado de “bons velhos tempos”, mas também de
momentos menos bons.
Um luto de confronto amigável para com a vida presente. Uma vida nova,
diferente, desigual, mas feita com pessoas que vivem e querem recordar a
memória dos filhos que partiram.
A culpa invade-nos, porque percebemos perante a morte, a nossa dimensão.
Não somos divinos e muito menos, perfeitos. Nem autónomos e donos da
vida.
Somos todos filhos de pais que já partiram e pais de filhos que nos
deixaram. É um jogo com regras bem definidas. Mas implacáveis.
E isto custa-nos demasiado a aceitar: a perpetuação da vida, feita a
partir da morte de cada um.