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Janelas Abertas - Dezembro 2007

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“Porquê tanta culpa?”

Provavelmente o que muitos pais falam, quando se dizem culpados, não é de sentimentos de culpa que estão a falar, mas de algo mais  que é muito dificil definir. 

É o reconhecimento da falta de estratégias para olhar para a vida, após a morte de um filho. A vida agora, é só feita a partir dos pais e dos irmãos, quando os há.

A partir desse instante, e durante muito tempo, os planos que existiam em comum, numa família, dei- xam de fazer sentido. Essa interrupção abrupta, retira-nos toda a lucidez e  energia.

Vazios por dentro e sem ambição, os pais passam a deambular num mundo de trevas, dor e muita solidão.

Os outros não conseguem compreender e afastam-se e os pais, também eles, se afastam, por se tornarem incompreendidos. 

Então, aflora todo o tipo de pensamentos e balanços. Recordações e projectos. E a memória, companheiro dos nossos silêncios, deixa de ser muitas vezes o amigo mais adequado.  

É preciso fazer um luto de paz. Paz interior e que não seja contra nada, nem ninguém. Um luto recheado de “bons velhos tempos”, mas também de momentos menos bons. 

Um luto de confronto amigável para  com a vida presente. Uma vida nova, diferente, desigual, mas feita com pessoas que vivem e querem recordar a memória dos filhos que partiram. 

A culpa invade-nos, porque percebemos perante a morte, a nossa dimensão. Não somos divinos e muito menos, perfeitos. Nem autónomos e donos da vida.  

Somos todos filhos de pais que já partiram e pais de filhos que nos deixaram. É um jogo com regras bem definidas. Mas implacáveis. 

E isto custa-nos demasiado a aceitar: a perpetuação da vida, feita a  partir da morte de cada um.

 

Dr.Carlos Céu e Silva

Psicólogo Clínico

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